Ursos polares de Svalbard resistem ao aquecimento melhor do que esperado
Os ursos polares de Svalbard, arquipélago da Noruega no Ártico, aumentaram o seu tamanho corporal e resistem melhor do que o previsto às alterações climáticas aceleradas que afetam a região, de acordo com um estudo.
"O aumento da sua condição física durante um período de significativa perda de gelo marinho foi uma surpresa", realçou à agência France-Presse (AFP) Jon Aars, do Instituto Polar Norueguês, principal autor do artigo publicado na quinta-feira na revista Scientific Reports.
Aars acredita que este resultado pode ser explicado por uma diversificação na dieta dos ursos.
Os cientistas analisaram o tamanho corporal de centenas de ursos entre 1995 e 2019 no arquipélago norueguês de Svalbard, uma região que experimenta alterações climáticas até quatro vezes mais rápidas do que a média global.
Algumas zonas do mar de Barents chegaram a registar um aquecimento de quase 2°C por década nos últimos 40 anos, apontaram os investigadores.
Como consequência destas condições climáticas, o gelo marinho que serve de habitat aos ursos polares, estimados entre 1.900 e 3.600 indivíduos em todo o mar de Barents, segundo um censo de 2004, está a recuar.
Os cientistas esperavam, por isso, encontrar ursos mais magros, como noutras regiões do mundo afetadas por um recuo do gelo semelhante, mas o resultado foi surpreendente.
O índice que mede a condição corporal dos ursos, após um declínio inicial entre 1995 e 2000, "aumentou posteriormente durante um período de rápida perda de gelo marinho", concluíram os investigadores no seu estudo.
"Este resultado pode parecer surpreendente porque contradiz as conclusões de estudos realizados noutras populações de ursos polares, como na baía de Hudson, onde a condição física diminuiu drasticamente devido ao aquecimento global", explicou à AFP a investigadora Sarah Cubaynes, que não participou diretamente neste estudo, mas também trabalhou com populações de ursos.
Uma diminuição destas medidas, que têm em conta o tamanho corporal e as reservas de gordura, teria sido considerada um indicador de futuros problemas demográficos para estes animais, tal como noutras regiões.
"Quando as condições se deterioram, com menos acesso a alimento, inicialmente prevemos que os ursos fiquem mais magros, acumulando menos gordura, antes que a situação se agrave ainda mais e a sobrevivência e a reprodução diminuam significativamente", destacou Jon Aars.
Os autores da investigação realçaram, assim, a importância de não extrapolar as observações de uma região para outra.
A situação dos ursos polares de Svalbard é regida por uma "relação complexa" entre o seu habitat, o ecossistema e os seus ganhos e gastos energéticos, sublinharam.
Para explicar a sua resiliência, os autores sugeriram que os ursos conseguiram diversificar a sua dieta, que até então era constituída maioritariamente por focas.
Podem ter conseguido caçar renas e morsas com mais facilidade, cujas populações voltaram a prosperar após terem sido sobre-exploradas pelos humanos.
A concentração de uma determinada espécie de foca também pode ter aumentado quando o gelo marinho era menos abundante, exigindo menos esforço dos ursos para as caçar.
"Uma hipótese plausível seria a de que as ursas conseguem manter a sua condição física, embora à custa de produzir menos crias", acrescentou Sarah Cubaynes, sugerindo uma possibilidade não referida no estudo.
Embora a adaptação dos ursos polares estudados pareça uma "boa notícia", os investigadores estão menos otimistas em relação ao futuro, acreditando que os ursos de Svalbard serão provavelmente afetados pelas alterações climáticas num futuro próximo.
"Acreditamos que ainda dependem da sua capacidade de caçar focas no gelo", o que se revelará mais difícil, alertou Jon Aars.